A capota aberta do DS3 Cabrio tem uma virtude: permite aconselhar os abutres a arranjarem uma vida.

O abutre cheira mal da boca, dos pés e da alma; O abutre bate na mulher, no carro dos outros e em animais; O abutre vê telenovelas, reality-shows e espectáculos de peep-show; o abutre é militante dum partido rasca (é escolher) desde sempre e vota sem pensar, como se fosse uma questão clubística; O abutre nunca liga à estatística; O abutre conduz na faixa do meio à patrão; O abutre acha que tem sempre razão; O abutre já fugiu uma vez duma bomba de gasolina sem pagar; O abutre riscou carros; O abutre pica-se nos semáforos e mexe muito no volante ao ‘pilotar’; O abutre viola traços contínuos; O abutre tem queda para a música, jeito para o golfe e talento para coisa nenhuma; O abutre insulta de longe e desaparece na bruma; O abutre acha que os polícias são todos uma cambada; O abutre é que sabe, e mai’nada; O abutre conta anedotas racistas; O abutre goza com as mulheres ao volante; O abutre jura nunca ter tido um acidente; O abutre acha-se superior a toda a gente; O abutre dá ares de pedante; O abutre está convencido de que se safava nas pistas; O abutre sabe todos os esquemas e atalhos; o abutre manda toda a gente para… outros lados; O abutre come enquanto conduz; O abutre grita, não seduz; O abutre acha-se o máximo mas nunca desliga à noite os máximos; O abutre está convencido de que ‘civismo’ é uma edição limitada do Honda Civic; O abutre observa os despojos dos acidentes como um mirone vê bikinis na praia; O abutre abranda, o abutre olha, o abutre atrasa a vida a toda a gente; O abutre é sádico e voyeur. Morra o abutre, morra. Pim! Pronto, uff, já deitei cá para fora. Prende-se este desabafo, na versão gota de água que transbordou do copo, com uma saída de Lisboa em hora de ponta com destino ao Porto. Uma correria desenfreada para um compromisso profissional quase comprometida com duas horas encurralado no trânsito devido a um aselha que derrapou e bateu sozinho e à imensa fila daí gerada graças aos abutres – todos os conhecemos – que fazem a mórbida marcha lenta de parasitas a cheirar a morte. Alguns até filmavam com os telemóveis, imagine-se. Graças sejam dadas ao Citroën DS3 Cabrio: acalmou-me o stress e permitiu distrair-me com bonomia graças ao seu estilo e pinta despretensiosa. Quando finalmente pude acelerar, crónica já mentalmente escrita, ainda me ofereceu a capota aberta para um conselho gentilmente gritado aos abutres: arranjem uma vida.

PS: E obrigado, Almada Negreiros, pela inspiração.

 

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