A cor do 3008 1.6 BlueHDI ensaiado pode ser um bom prenúncio, mas será este o bilhete dourado que permitirá à Peugeot destronar o bem-sucedido Nissan Qashqai? É que o SUV gaulês não está sozinho nesta demanda e o Seat Ateca 1.6 TDI promete fazer-lhes a vida negra. Argumentos não lhe faltam...

Apresentado no Salão de Paris em 2006, o Qashqai foi, desde o momento do lançamento oficial, um verdadeiro “game changer”. Não só deu um novo ímpeto à Nissan, como criou um burburinho tal em torno dos SUV médios que, será justo afirmá-lo, acabou por impulsionar o segmento e toda uma avalanche de novos modelos. Apoiado por uma estratégia comercial muito agressiva e por atributos como o desenho consensual, uma lista de equipamento tentadora e o espaço interior capaz de rivalizar com qualquer pequeno familiar, o Qashqai mantém-se, ainda hoje, como um sucesso de vendas e o alvo a abater por qualquer novo pretendente ao segmento. E desta feita, o Qashqai não enfrenta uma novidade, mas logo duas e de peso! O Ateca é a primeira tentativa “séria” da Seat neste segmento, mas a experiência acumulada com o Altea Freetrack ou, mais recentemente, o Leon X-Perience e o facto de pertencer ao gigantesco grupo VW, dá-lhe uma bagagem assinalável. A Peugeot também não é “rookie” no conceito e até já tinha um 3008, mas este novo modelo não só é radicalmente diferente como, a julgar pelas observações ao longo do ensaio, é um caso sério de “sex-appeal”.

Será que é desta que o Qashqai perde o reinado?

Uma coisa é certa, se estiver apenas à procura do negócio mais convidativo, a Nissan torna a escolha óbvia. Se cumprir todos os critérios, o Qashqai que vê nestas fotos pode custar 25 000€. É verdade que poucos têm um outro Qashqai para a retoma (1750€ de apoio à retoma, mais 1000€ de bónus por ser um Qashqai), que nem todos optam pelo financiamento RCI Gest com seguro incluído (1000€ + 300€), mas os 2900€ que representam o upgrade de equipamento permitem comprar este N-Connecta ao preço da versão de acesso Visia.

O 3008 está no extremo oposto e os 750€ de desconto parecem trocos quando sabemos que este 1.6 BlueHDI Allure ultrapassa, com facilidade, os 35 000€ e nem precisa de adicionar muitos extras para atingir esta cifra... A Peugeot é a primeira a dizer que não é adepta de descontos e o CEO do grupo PSA (o português Carlos Tavares) já assumiu que quer reposicionar a Peugeot ligeiramente acima das restantes marcas generalistas, resta saber se esta estratégia irá resultar no 3008.

O Ateca volta a assumir um certo pragmatismo e, mesmo sem descontos anunciados, consegue ser o mais barato dos três (pela margem mínima possível). Obviamente que isto resulta de uma menor aposta no equipamento de série, embora o Seat tenha (quase) tudo o que se pode esperar de um automóvel de 30 000€ e a política de preços dos opcionais seja muito razoável. Na segurança, por exemplo, o Ateca, de série, surge quase desprovido dos auxiliares de condução que marcam presença nos seus adversários, mas por 661€ pode adquirir um pacote de conforto e condução avançado que inclui todos os elementos que diferenciam o 3008 e o Qashqai neste comparativo.

Aliás, apesar do “berço” latino, o Ateca não esconde a influência dos tutores alemães. O desenho exterior, se bem que elegante, é pouco imaginativo e o interior prima mais pela qualidade geral e ergonomia dos comandos do que pelo arrojo do desenho ou pela sofisticação. O 3008, mais uma vez, afasta-se desta estratégia e pisca o olho aos premium. O i-Cockpit, um conceito que a Peugeot irá aplicar, progressivamente, a toda a gama, prevê a substituição da instrumentação convencional por um painel digital e orienta o tablier no sentido do condutor, criando um ambiente sofisticado e transmitindo uma qualidade percebida acima da média. Os próprios revestimentos contribuem para esse efeito, com aplicações estratégicas de diferentes materiais (metal, tecido, etc.) que transmitem uma imagem “upmarket” ao 3008. O Nissan, nesta companhia, vê-se prejudicado pela antiguidade no mercado (esta 2ª geração é de 2013) e massificação de unidades comercializadas, apresentando um ar menos atual (o ecrã tátil é pequenino e o grafismo mais antiquado). A própria qualidade geral não está ao nível da dos seus adversários, especialmente no que diz respeito à montagem. Onde o Nissan também começa a perder terreno é no espaço interior e, em especial, na capacidade da mala, consideravelmente mais pequena e menos versátil.

Dinamicamente, o Qashqai também já teve melhores dias. O controlo de movimentos da carroçaria não está ao nível do apresentado pelo Ateca, a motricidade é posta em causa com maior frequência (mesmo com jantes de 18” e pneus 215/55), o conforto de rolamento e a sensação de solidez estão distantes dos oferecidos pelo Peugeot. Aliás, o 3008 assume-se desde já como a melhor proposta do segmento na relação conforto/comportamento, com um “pisar” sólido e composto e um comportamento muito previsível. O Seat, em especial nas versões com jantes e pneus mais desportivos, é o mais ágil, interativo e melhor controlado dos SUV médios, mas fá-lo à custa do conforto que, mesmo nesta unidade com jantes de “apenas” 17”, está longe de ser referencial. A suspensão traseira por eixo de torção (multibraços nas versões 4x4) também torna o Seat ligeiramente mais “saltitão” e menos complacente em maus pisos.

Nas prestações o Qashqai impõe-se, tirando partido do acréscimo de potência e fôlego do 1.6 dCi de 130 cv. Mesmo sendo ligeiramente mais pesado, o Nissan bate facilmente o 3008 1.6 BlueHDI de 120 cv e “esmaga” o Ateca 1.6 TDI de 115 cv, tanto nas acelerações como nas recuperações. Curiosamente, esta supremacia não se reflete nos consumos, já que o Qashqai gasta tanto como os seus adversários, provando a mais valia do motor 1.6 dCi que só “claudica” abaixo das 1750 rpm. Mas o “mal” estava feito e a pior prestação no habitáculo levou o Qashqai ao terceiro lugar do pódio.

O Ateca foi prejudicado pelo menos expedito 1.6 TDI de 115 cv e a menor dotação de equipamento de série e nem a vitória na economia conseguiu diluir o handicap face ao caro 3008. Este é penalizado por um preço que, com alguns extras, se aproxima perigosamente de alternativas bem mais reputadas, mas a estratégia da Peugeot de não poupar esforços para “justificar” o referido acréscimo de preço só esbarra na, ainda, menor imagem de marca porque, de resto, o 3008 é uma aposta ganha.

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