O Superleggera e o Tonykart Vortex 125 têm em comum a relação peso/potência abaixo dos 3,0 kg/cv.

 



“Um kart com 500 cv", foi assim que o Pedro Silva, Chefe da Equipa de Ensaios, definiu o Superleggera, o mais puro dos Lamborghini Gallardo, depois de o ter experimentado no circuito americano Phoenix International Raceway. A pureza de reacções, a facilidade de colocação em curva e o carácter bombástico dos 530 cv - é este o número exacto - foram as virtudes apontadas ao super-desportivo italiano. Um ano depois, é chegada a vez de viver essas sensações em solo nacional.

A brincar em Palmela
Uma vez que a analogia já tinha sido lançada, decidimos levar o Gallardo Superleggera ao Kartódromo Internacional de Palmela, para defrontar o Tonykart Vortex 125, o mais poderoso dos karts de competição. O Lamborghini e o kart têm, pelo menos, dois pontos em comum: a relação peso/potência abaixo dos 3,0 kg/cv e o repúdio pelo excesso de quilos. Mas escusado será dizer que o kart ganhou o duelo.

Este é o seu habitat natural, com as pequenas dimensões e a escassa inércia a permitirem-lhe travar muito mais tarde e a negociar as curvas a velocidades que o Superleggera não consegue igualar. O que para o kart é uma curva média, para o Superleggera é um gancho...

Embora o kart tenha terminado com larga vantagem, o seu piloto reconheceu que, a direito, o Superleggera ganhava vantagem. O som frenético e agudo do "dois tempos" tinha menos encanto que o poder vocal do V10, mas este raramente teve oportunidade de "encher o pulmão" num circuito tão pequeno para a envergadura do Gallardo, que se deparou com problemas de escala… A brincadeira estava feita e, já devidamente espicaçado pela derrota no kartódromo, era chegado o momento de saber como se comporta o "touro enraivecido" fora da "arena".


 


Paixão automóvel
Passar um dia inteiro ao volante do Superleggera altera irremediavelmente a percepção da realidade. Há uns quantos automóveis que custam tanto ou mais do que os 245 mil euros deste Gallardo, mas pouquíssimos rivalizam com o seu poder magnético, que atrai os olhares de quem vai nos passeios e nos carros em seu redor - é usual ter o retrovisor "cheio" com alguém "colado" à traseira do Lamborghini, pendurado no volante para tentar vê-lo bem de perto…

As linhas afiladas, a conjugação da altura mínima com a largura descomunal, as rodas enormes, as amplas entradas de ar e a asa em carbono irradiam alta velocidade, o laranja "Borealis" torna-o ainda mais apelativo e aquele som…
É como ter um carro de corridas à solta na via pública, com o V10 a ecoar nas ruas da cidade e a anunciar a nossa chegada. Nas reduções, a caixa sequencial E-Gear efectua as "duplas" mais audíveis de que há memória e é um sacrilégio não baixar os vidros nos túneis e esmagar o acelerador.

A surdez e os problemas de garganta - andar de janela aberta com temperaturas baixas deu nisso - são males menores facilmente compensados pelos benefícios da alma. O Gallardo Superleggera desperta as melhores reacções nas pessoas, tanto em quem tem o privilégio de estar lá dentro, como nos que rejubilam ao vê-lo passar. A todo o instante, surgem demonstrações espontâneas de pura paixão automóvel: gente que nos incita a acelerar, polegares erguidos em sinal de aprovação e uma série de interjeições, acompanhadas de queixos caídos e sorrisos rasgados. É como ter aquele fervilhar de emoções do extinto Rali Vinho do Porto recriado, ali mesmo, ao virar de cada esquina.



 

 


 

Ambiente de corrida
"Cair" para dentro do Gallardo Superleggera não é tão difícil quanto seria de esperar, com os ocupantes a adoptar uma postura bastante rebaixada, num habitáculo que dificilmente poderia ser mais evocativo do mundo das corridas.

Os bancos ultra-envolventes impedem o corpo de se mexer em curva, os cintos de quatro pontos fixam-no nas travagens mais fortes e o volante de aro recortado está perfeitamente alinhado com o "piloto".

A fibra de carbono e a camurça dominam este cenário espartano, onde a climatização automática quase que destoa e o auto-rádio - dispensável, dadas as qualidades acústicas do V10 - prima pela ausência.

No clube dos 300 km/h
O modo automático da caixa é decente q.b., mas o condutor raramente dá uso a esta "mordomia" quando pode "subir" e "descer" com as patilhas fixadas na coluna de direcção. O motor é ávido a subir de regime e a leveza deste Lamborghini permite-lhe ser muito solícito, mesmo quando roda em 6ª a baixa velocidade. Mas é num ápice que a progressão se torna ilegal…

No modo Sport, a caixa efectua trocas secas e fulminantes, com o poder de aceleração a manter-se inexorável muito para lá dos 200 km/h… Apesar da sessão de medições indiciar uma ligeira perda de rendimento, o andamento desta unidade continua a ser impressionante.

Os 1000 metros são atingidos 22,2 segundos depois do arranque e os 300 km/h são uma marca superável, com o Superleggera a ostentar uma serenidade de fazer inveja ao 911 GT2, o seu mais directo rival. Contudo, a crescente incerteza da direcção indicia o menor apoio aerodinâmico do Gallardo.


Faena com saída em ombros...
Mas o que realmente impressiona é como um “touro” de 530 cv se mostra tão utilizável num traçado sinuoso. A estrutura tremendamente rígida dá sustento a suspensões bem calibradas para o nosso tipo de estradas, mostrando-se cooperantes na digestão de pequenas irregularidades, mesmo durante as travagens mais fortes.

Os discos em carbono/cerâmica asseguram um fortíssimo poder de desaceleração - embora o curso do pedal se alongue ligeiramente num uso consecutivo - e é possível carregar muita velocidade para o interior da curva ainda "nos travões". A colocação central do motor agiliza a postura em apoio e, com o sistema 4x4 a privilegiar as rodas traseiras, é possível usar a potência para alinhar o Gallardo e antecipar o retorno do volante ao ponto neutro.

Lamentavelmente, os comandos da caixa não acompanham o volante e, nas zonas mais lentas, é frequente curvar com uma mão no volante e a outra desesperadamente à procura da patilha da caixa…. Em pisos pouco aderentes, e com a electrónica de estabilidade desactivada, não temos a autoridade desejada sobre o Lamborghini. A frente escorrega um pouco mais que o esperado e as saídas de traseira exigem correcções atempadas. Mas a verdade é que a unidade ensaiada não estava calçada com Pirelli PZero Corsa, que equipam todos os Superleggera à saída da fábrica. Talvez com esses pneus, se materialize a analogia que o Pedro estabeleceu entre este Gallardo e um kart…

 


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