O João Batista desafiou o Samuel Fialho para repartir os custos, as emoções e a estreia no todo-o-terreno a caminho de Marrocos... com uma 4L. Um ano depois de pedinchar apoios e de 6 000 km com uma Renault de 1983, regressaram riquíssimos de histórias que, muito resumidamente, escreveram, na primeira pessoa, para esta edição.

Começou a nossa viagem de aquecimento até França! A bandeira portuguesa soltou-se e tivemos de a retirar do tejadilho, mas prontamente colocámos a boina e o cachecol português para manter o nível. Enquanto abastecíamos conhecemos um senhor francês que tinha estado no sul de Portugal e estava a voltar de moto para casa. As 4L fizeram sucesso sempre que passámos por carros portugueses era uma festa de apitos. E ainda em Vilar Formoso começámos a ganhar experiência, pois conhecemos um marroquino que ia convencendo o nosso colega João Mendes a comprar um casaco... Os 500 km de Espanha para França foram um teste às 4L por ser sempre a subir. Apanhámos “boleia” de camiões que cortavam o vento, efeito que se notava bastante nas subidas! Até França fizemos o percurso sempre com o horizonte coberto de neve e conhecemos mais dois portugueses: um rapaz de Pombal que nos deu indicações e um camionista que almoçou connosco, repasto típico português com mesas de campismo na paragem de camiões. Chegámos a Biarritz para as inspeções técnicas e assim que dois mecânicos aperceberam que eramos portugueses foi logo uma festa: José e Carlos, prontamente entregamos-lhes um pequeno porta-chaves com o logótipo da nossa equipa, ritual que viríamos a fazer com todos os amigos que fizemos pelo caminho. Depois da euforia, os senhores ajudaram-nos nas inspeções técnicas e as duas 4L portuguesas passaram com distinção. Finalmente éramos participantes oficiais do 4L Trophy de 2016. Até Algeciras apanhámos muita neve, ajudámos uma das várias equipas que partiram o para-brisas por causa das pedras, perdemos a “sauffage” e à chegada a nossa Renault deixou de desligar. Era um fusível desencaixado.

Durante a viagem demos por falta de um quadro branco e um marcador, a forma de comunicar nas ultrapassagens e que os franceses utilizavam para as mensagens mais diversas.

Em Algeciras fizemos algumas compras antes do briefing, no qual encontrámos Jean Jaques Reys, fundador do 4L Trophy, a quem pedimos que assinasse o capot, pedido que ele cumpriu com “boa viagem”, num português quase perfeito. Foram-nos explicados os cuidados a ter em Marrocos e tivemos a notícia infeliz que as duas equipas portuguesas, com os números 536 e 1609 teriam etapas, horas e percursos diferentes. O grupo de 1200 participantes seria partido em dois. Na primeira etapa em Marrocos, para ajudarmos uma equipa com problemas elétricos, chegámos ao local onde deveríamos acampar às 9h30 da manhã, estava a acabar o pequeno-almoço. Comemos e arrancámos novamente. Devido a todos os atrasos tinha de ser desta forma, uma direta a conduzir. Ficámos os dois acordados para evitar que o “piloto” adormecesse e fomos bons clientes de café nas áreas de serviço. No Atlas chegámos aos 2200m de altitude e o único problema foi a fila de seis centenas de 4L, algumas dezenas não aguentaram o calor da subida a passo lento. A nossa, sempre com a ventoinha do radiador a funcionar, portou-se lindamente. No dia da partida para Merzouga tivemos a primeira experiência off-road: fora do asfalto, apesar de plano e rijo, deu para ver que a Renault 4L estava à altura da fama e começámos a ficar infetados com o “bicho” do fora-de-estrada, desafiando progressivamente a pequena Renault. Nesse dia ouvimos um barulho no motor. Era do amortecedor, que se tinha solto. Minutos depois parou um dos carros de mecânicos da organização que ajudou a apertar o amortecedor. Como não fomos nós que o chamámos, não fomos penalizados em km. Neste dia vimos também o nosso primeiro camelo. Tirámos uma centena de fotos, movidos pelo entusiasmo... Até ao final da viagem não faltaram camelos, mas com menos interesse. Foi ainda neste dia que cumprimos o objetivo da nossa viagem: entregar o material escolar à associação “Enfants du desert”: 50 toneladas, distribuidas pelos participantes. Esperamos que lhes seja dado um bom uso. Um dia Pleno de emoções!

No dia seguinte, a 50 km de Merzouga parámos numa fila no deserto. Com apenas um caminho de travessia para todas as 4L ficámos 6 horas à espera, ou seja: dezenas de amizades para a vida! Ao bom espírito do raid, uma equipa arranjou mesa, outra a tábua com presunto, outra o vinho e fez-se um lanche para todos.

De manhã passámos pelo camião dos mecânicos para dar alguns retoques à 4L (soprar filtros e fixar melhor uma das palas das rodas traseiras) e para reapertar alguns parafusos. Entre Merzouga e Tazzarine, a etapa maratona de dois dias para fazer o máximo de km e com pernoita por nossa conta no deserto. Ficámos com a outra equipa portuguesa e uma equipa de duas raparigas francesas, Noemie e Lea. Mais tarde juntou-se outra dupla francesa feminina, Laure e Coline. Procurámos um local macio para as tendas e sem vento e optámos pelo leito seco de um rio. Arranjámos lenha para a fogueira, que nem com acendalhas e muitas tentativas pegou. O jantar foi cozido à portuguesa enlatado com arroz e partilhado por todos. Foi de facto uma noite magnífica no deserto, estando deslocados de toda a iluminação artificial e com o céu limpo! Na etapa final descobrimos estar em primeiro lugar na classificação europeia, que mantivemos até Marrakech e que comemorámos em todo o regresso.

Assine Já

Edição nº 1460
Já nas bancas

Digital Papel

Top

Os mais recentes